Filosofias do Budo

Em um país atormentado durante muito tempo por guerras e conflitos, os samurais desenvolveram um rigoroso código ético não-escrito, conhecido como bushido, que fornecia parâmetros para se viver e morrer com dignidade. Hoje em dia, em um Japão mais seguro, este código de conduta desenvolveu-se para uma filosofia de vida, o Budo.

Filosofias do Budo

As filosofias do budo, foram escritas por famosos Kendo-kas e mestres zen tais como Miyamoto Musashi, Yagyu Munenori, Sekishusai, Soho Takuan e muitos outros, a cerca de 500 anos atrás. Budo pode ser traduzido como caminho das artes marciais, bu significa “marcial” ou “militar” e do “caminho”. Todas as artes marciais japonesas são chamadas de budo, quando estas possuem conotação filosófica. Na idade média (Sengoku-gidai), principalmente em seu crepúsculo, surgiram grandes gênios da luta. Através das experiências vividas, eles se preocupavam em manter, mesmo em época de paz, o Ken-no-kokoro, o espírito da esgrima, considerado o alicerce do bushido (caminho do samurai), o qual desenvolveu-se em conjunto para a formação humana com ken (espada).

O homem não consegue viver em sociedade usando somente sua força animal ou instinto. Surgiu então um apoio mental, recorrendo-se à pratica do zen (método que dá equilíbrio mental). O Kendo chegou a um alto nível de perfeição, pois “ken-no-miti”, o caminho da esgrima, é a meta de formação do samurai, favorecendo inclusive na era Tokugawa, o controle e o aprimoramento ao máximo da força mental e das técnicas. As lutas de Kendo permitiram enfrentar adversários fisicamente maiores com possibilidades de vence-los, impondo a paz e a disciplina, mostrando assim que já naquela época, os nobres procuravam aprimorar a mente e o corpo.

Objetivos da prática do Budo

Em resumo, deve-se a pratica do budo, a tarefa de contribuir na evolução do homem, ajudando-o a enfrentar e encarar a realidade com energia e coragem. A meta é descobrir o caminho de cada ser humano dentro das suas limitações e possibilidades. O homem, em sua evolução física e espiritual passa pelo estágio primário, secundário, atingindo um nível superior. Esta busca de perfeição deve ser o caminho da vida, que a cada dia se aprimora. Esta escolha do caminho permite ao homem viver, sentir, perceber, aperfeiçoar-se, enriquecendo-se até a morte.

A percepção atua, de acordo com o grau de sensibilidade, por meio dos órgãos dos sentidos, levando a diferentes reações e comportamentos. Além desses valores perceptivos, existe a riqueza espiritual que se manifesta pelo grau de emoções, satisfações e podem conduzir a verdadeira felicidade. Esta energia espiritual pode levar a um magnetismo favorável na personalidade e à formação de um alto grau de cultura do homem. O instrumento para o caminho da vida é a técnica que dá ânimo, motivação e estímulo. Para, utiliza-la, o homem aperfeiçoa sua habilidade e seu talento mantendo um bom controle do físico e da mente. Aqui, talvez esteja o verdadeiro caminho da vida.

Ser Guerreiro

Ser guerreiro é…

Saber que não existem atalhos para o destino. E que em hipótese alguma, haverá vitória sem luta, e não haverá luta sem adversários.

A derrota, para o guerreiro, nada mais é que o adiamento da inevitável vitória. O Guerreiro é, por natureza própria, perseverante. Pensa em desistir mas não desiste, pensa em fugir mas não foge, pensa em vingança mas não vinga. Se sente medo, nao o deixa domina-lo, tampouco deixa invadi-lo, o conhece apenas para evita-lo.

Assim, através do autodomínio, alcança a plenitude do não-pensamento, onde o Tudo se torna Vazio, e o guerreiro se torna um com esse vazio, restando apenas o infinito Amor.

Alcançou seu objetivo, se tornou um com seu caminho. E deste ponto em diante, do alto de seu Satori, sabe que nada é impossível. Não há e nem haverão de existir barreiras insuperáveis, inimigos invencíveis, ou caminhos que não possam ser percorridos. E também sabe que, quando se quer alguma coisa, o universo inteiro conspira a seu favor.

Fazendo a vida valer a pena, tentando sempre, desistindo jamais. Tornando o sonho verdade, o erro em acerto, a barreira em passagem, o desespero em solução. Verdadeiro, simples, decidido e objetivo. Compreende a todos, mesmo sabendo que é incompreendido. Com coragem, através da honra, e pelo Amor, sempre!

- Daniel Jaoude

Poder estratégico militar

Em 341 a.C., o Estado chinês de Ch’i, em guerra contra o Wei, enviou T’ien Ch’i e Sun Pin contra o General P’ang Chuan, que era inimigo mortal do último.

Sun Pin disse a T’ien Ch’i: “Os soldados inimigos são rudes, destemidos e corajosos, e dão pouco importância a C’hi. O Estado de C’hi tem sido designado de maneira covarde, por isso nosso adversário nos despreza. Vamos transformar essa circunstância a nosso favor. Quem excele na guerra, confia em seu poder estratégico e percebe as vantagens de se conduzir um inimigo para onde quiser. Faça com que nosso exército de C’hi, ao adentrar as fronteiras de Wei, acenda 100.000 fogueiras. Amanhã 50.000, e novamente depois de amanhã acenda 30.000 fogueiras.”

P’ang Chuan, passados três dias, disse com grande exaltação: “Agora sei realmente que o exército de C’hi está apavorado. Estão no nosso território a apensa três dias, mas mais da metade dos oficiais e soldados desertaram. Eu sabia que os soldados de C’hi eram covardes.” Sendo assim, P’ang Chuan abandonou a infantaria e cobriu o dobro da distância pela qual ele percorreria normalmente em um dia, somente com as unidades ligeiras e de elite, em direção ao local onde se encontrava o exército de C’hi. Sun Pin, estimou que o exército inimigo chegaria na região de Ma-ling ao anoitecer.

A estrada para Ma-ling era estreita e íngrime e suas tropas podiam ser dispostas a fazer emboscada. Chegando lá, tirou uma casca de um tronco de uma grande árvore e nela escreveu: “Sob esta árvore, P’ang Chuan morrerá.” Quando ordenou que um poderoso corpo de 10.000 hábeis besteiros esperassem em emboscada em ambos os lados, e os instrui: “Ao anoitecer, quando virdes um fogo, subi e atirai todos juntos.” A noite, P’ang Chuan chegou ao local em que se encontrava a árvore, conforme Sun Pin havia previsto, e ao ver o tronco escrito, bateu uma pedra e acendeu uma tocha. Não tinha acabado de ler a mensagem quando cerca de 10.000 besteiros atiraram em massa. O exército de Wei desmoronou-se em caos e desordem coletiva. C’hi aproveitou a confusão e eliminou todo o exército inimigo.

SUN TZU DISSE: “Quem for hábil em movimentar o inimigo, se dispõe em uma configuração a qual cumpre que o inimigo responda. Oferece alguma coisa de que o inimigo precisa se apoderar. Pelo lucro, move-o, com seus fundamentos o espera.”

“O guerreiro inteligente emprega o efeito estratégico e não exige muito dos indivíduos. Leva em conta a aptidão de cada homem e não exige perfeição dos sem talentos.”

- A Arte Da Guerra
Sun Tzu

O Verdadeiro Mestre

Yagyu Tajima no Kami Munenori foi um grande espadachim e mestre de artes marciais de duas gerações de xoguns. Em suas conclusões intuitivas, expressa como “mente comum que não conhece regras”, existe um ditado que diz: “Não existe táticas militares que se apliquem a um homem de grande força”.

Certo dia, um dos vassalos do xogum aproximou-se de Tajima no Kami e pediu-lhe que o aceitasse como discípulo, ao que Yagyu respondeu: – Pelo que vejo, o senhor já é um mestre. Peço-lhe que me diga a que escola pertence, antes que entremos na relação mestre-discípulo.

O guarda observou que se envergonhava de dizer, mas jamais tinha aprendido a arte da esgrima.- Mas eu nunca pratiquei nenhuma arte marcial – respondeu o homem.

- O senhor está zombando de mim? Sou o mestre do venerável xogum e sei que meus olhos jamais se enganam.

- Lamento ofender a sua honra, mas a verdade é que jamais tive qualquer conhecimento desta arte – insistiu o guarda.

- O senhor veio praticar o Tajima no Kami como esporte? Estou errado em achar que o senhor é um dos professores do xogum? – perguntou mestre Yagyu, mas o homem jurou que não e então, frente a tão segura negativa, o mestre vacilou um momento, ao final do qual disse: – Como o senhor afirma, não vou desmenti-lo, mas seguramente o senhor é mestre em alguma outra disciplina, embora eu não saiba qual seja.

Respondeu-lhe o guarda: – Devo dizer-lhe que existe algo no qual me considero mestre. Quando eu era criança, ocorreu-me a idéia de que o guerreiro é um homem que não vive sua vida a se lamentar e não tem o direito de temer a morte em qualquer circunstância. Desde então lutei continuamente com a idéia de morte. Como acredito nisso há muitos anos, isso se tornou uma grande convicção. Hoje em dia, eu nunca penso na morte. Talvez seja a isso que o senhor se refere.

Mal ouvira tais palavras, mestre Yagyu ficou muito impressionado com a resposta e exclamou: – Alegro-me que minha impressão estava certa, pois o princípio mais profundo da arte da espada é atingir a libertação da idéia de morte. Tenho mostrado essa meta a centenas de discípulos, mas até o momento nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. O senhor não precisa de qualquer treinamento, pois já é um mestre.

Dizem que depois disso, Yagyu Munenori concedeu imediatamente o certificado ao vassalo do xogum.

História de Muragawa Soden
Hagakure, Século XVII

“Viver sem medo da morte não significa que, durante as horas felizes, nos gabemos de não tremer diante dela, nem que possamos afirmar que a enfrentamos com segurança. Porém, quem domina a vida e a morte está livre de todo o temor, a tal ponto que não é mais capaz de experimentar a sensação de medo.”

A arte cavalheiresca do arqueiro zen,
Eugen Herrigel

Bushido Online de cara nova

Desde 2003, o portal Bushido Online vem trazendo informações preciosas acerca dos guerreiros samurais e sua intrigante forma de vida. Hoje inauguramos o Blog Bushido Online, que trará novos artigos e contos, onde nosso visitante poderá deixar sua opinião sobre diversos temas envolvendo o caminho do guerreiro.

Ainda pensando na aproximação com o visitante, em breve apresentaremos a nova versão do site, com links para as redes no Orkut, Twitter e Youtube.

A nossa equipe conta com sua ajuda para melhorar o site em desenvolvimento. Estamos dispostos a aceitar críticas e sugestões que influenciarão o novo site.

Agradecemos sua colaboração e bom estudo!